terça-feira, 25 de maio de 2010

A princesa vegetal

     Era uma vez um rei de um reino muito distante. Um dia, ao amanhecer, descobriu, preocupado, que a pequena chave verde que guardava na gaveta da cómoda tinha desaparecido.
     Perguntou a todas as pessoas do paço real e todas lhe respondiam que não tinham visto essa chave. Àqueles mais atrevidos que o questionavam sobre a importância da chave, respondia que esse assunto era segredo de estado que só ao rei dizia respeito.
     Todos viam a rainha Rapunzel a chorar pelos cantos. O Rei, desesperado, mandou anunciar que o rapaz que encontrasse a chave casaria com a sua filha, a princesa Florbela que, aparentemente, desaparecera do palácio, tal como o seu irmão, o príncipe Rabanete.
     Um jovem aldeão apresentou-se a pedir informações para ir procurar a chave. O rapaz queria saber qual era a porta da chave verde. 
     - Isso não pode ser dito por motivos de segurança.
     - E onde está a princesa? E o irmão dela? - perguntou o jovem.
     - Só saberás isso quando descobrires a chave verde - esclareceu o rei.
     O rapaz não deixava de pensar no problema do chave. "Porque é essa chave tão importante? Porque há tanto segredo?".
     A coberto da noite escura, começou a inspeccionar o castelo, olhando para as altas torres. Fazia-o noite após noite. Apenas via luz nos andares do meio, No topo, a escuridão era total. Um dia, viu uma sombra que subia para a torre mais alta com uma candeia acesa. Era uma aparição fugaz que conseguia observar por várias seteiras da escada de caracol. Pelo porte, adivinhou: "É o rei". A cena repetiu-se nas noites seguintes.
     Um dia, lançou uma corda por cima do alto muro e escalou-o, entrou nos aposentos da criadagem e fingiu ser um dos criados. Num momento de silêncio, subiu também ao topo da torre mais alta. Junto da porta do compartimento, sentado num cadeirão, lá estava o rei meio adormecido. Olhou para a porta. A fechadura era verde! Seria a daquela chave? Apressou-se a descer não fosse o rei acordar de repente e surpreendê-lo, mas, nesse momento começou a ouvir um canto muito baixinho, do outro lado da porta. Ali estava a princesa!
     Como criado do palácio, repetiu a perseguição silenciosa ao rei e voltou a ouvir o canto da princesa várias vezes. Durante o dia, o silêncio era absoluto, mas, à noite, recomeçava o canto de Florbela.
     Um dia, uma criada abordou-o:
     - Sei quem tu és. Finges que és um dos criados para descobrires a chave verde. Vou te ajudar, mas sai daqui que corres perigo.
     No dia seguinte, encontraram-se no mercado. Ela contou-lhe que a camareira-mor era suspeita, pois era a única que tratava dos aposentos da princesa desde que esta adoecera.
     - O que é que ela tem?
     - Ninguém sabe. É segredo. Eu sei isto porque comecei a perseguir a camareira-mor ainda antes da chave verde ter desaparecido. O verdadeiro quarto da princesa não é utilizado há dois anos e ela só aparecia à noite. Agora ninguém a vê, pois está presa naquela torre, como tu bem descobriste. Vi que é a camareira que lhe dá de comer, um cesto pela janela que ela lança com uma corda a partir do telhado e a princesa recolhe, assim que o sol se põe.
     O rapaz começou a perseguir a camareira-mor sempre que ela saía do castelo. Viu que ela, de vez em quando, saía a cavalo. Roubou um nas estrebarias do castelo para a perseguir na próxima vez que a visse sair a cavalo.
     A camareira passava a fronteira, para o reino vizinho, e, numa aldeia, entrava num grande jardim, com altos muros. O rapaz seguiu-a. Preparava-se para saltar o muro, quando apareceu uma velhinha que lhe gritou:
     - Ai, amigo, o que vai fazer aí?
     A velhinha convidou-o a entrar em casa. Da janela, via-se muito bem o quintal. Eram vegetais com muito bom aspecto, couves, alfaces e rapôncios frescos e verdejantes. A velha contou-lhe a sua história:
     - A dona desse quintal é uma terrível bruxa que me roubou a minha filha só por o meu marido ter-lhe roubado uns rapôncios para fazer uma salada, quando eu estava grávida. Nunca mais soube dela!
     - A sua filha deve ser a minha rainha, a Rapunzel! - declarou logo o rapaz.
     - A minha menina, rainha? - estranhou a pobre mulher com os olhos cheios de lágrimas - e eu, sem saber, e ela que não me chegou a conhecer... Mal nasceu, foi-me roubada! A mãe, para ela é a bruxa.
     - Sei que ela era uma menina pobre que o príncipe tirou das mãos duma terrível bruxa que a tinha presa numa torre. Pelo menos, há uma canção do meu reino que diz isso.
     - Olha ali vai ela a sair! - gritou a velhinha.
     O rapaz despediu-se e pôs-se logo a cavalo atrás da bruxa, com alguma distância, para não ser descoberto. De repente viu ao longe: "Lá está a torre. Afinal é verdadeira, a lenda da Rapunzel."
     O rapaz aproximou-se. A bruxa assim que chegou perto da torre, assobiou e um rapaz atirou uma escada de corda por onde a bruxa subiu. Esperou longas horas escondido nuns arbustos, com o cavalo preso a alguma distância. Viu a escada descer com a bruxa, ouviu novo assobio para o recolher da escada. A bruxa foi-se embora antes da escada estar completamente recolhida. O rapaz correu, agarrou uma ponta da escada e subiu-a a grande velocidade.
     Chegado à janela, encarou o rapaz que, surpreendido, lhe perguntou:
     - Quem é o senhor?
     - Príncipe Rabanete, vim tirar-te daqui.
     O rapaz olhou para o príncipe: parecia hipnotizado. Numa mesa, viu montes de comidas e bebidas deliciosas.
     - Não comas nada disto!
     Atirou tudo para o chão. A pouco e pouco, Rabanete começava a lembrar-se de coisas que tinham acontecido. O rapaz ia à aldeia buscar comida e água para o desintoxicar. Uns dias depois, já o príncipe contava tudo o que tinha acontecido.
     - A minha irmã durante o dia começou a ficar como que congelada, não podia sair do lugar onde estava. 
Parecia que ganhava raízes. À noite voltava a ser humana. Cada vez, ficava pior. Para sua segurança, o meu pai fechava-a na câmara da torre mais alta. À noite ia buscá-la. Durante a noite, ela cantava, dançava, brincava, mas assim que nascia o sol, sentia falta de ar e paralisava. Há umas semanas, a chave desapareceu e eu fui raptado e trazido para aqui pela camareira-mor. Ela dizia-me "Rabanete, tu vais ser o meu jardineiro e Florbela, a mais bela flor do nosso jardim. Roubaram-me Rapunzel e os rapôncios do meu quintal têm que ser pagos. Será por Florbela!"
     - E a chave verde?
     Deram a volta à torre à sua procura.
     No chão, abundantes cachos de cabelo doirado.
     - Olha os cabelos da tua mãe! - mostrou-lhe o rapaz.
     Entre os imensos montes de cabelos, o príncipe deu com uma caixinha verde e, lá dentro, a chave.
     Os dois puseram-se a caminho, chegaram ao castelo e subiram logo à torre, abriram a porta. Já o sol se tinha posto. A princesa saiu do quarto e pôs-se a cantar e a dançar como era costume. Assim que a camareira viu o príncipe e o rapaz juntos, desfez-se numa sombra verde que se desvaneceu.
     Nesse momento, a chave e a fechadura voltaram à sua antiga cor de ferro enferrujado.
     Uma semana depois, já a princesa tinha um aspecto rosado e sorridente e tinha deixado de se tornar vegetal durante o dia. A avó e o avô foram convidados para irem para o palácio. Rapunzel e a sua família estavam de novo juntos. A sua filha ia casar com o jovem camponês que a salvara.
     - Se eu casei com a filha duma camponesa, também a minha filha pode casar com um jovem pobre. Todos os heróis merecem tornar-se príncipes - declarou o rei.
Luís Filipe Redes

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